Anistiado
por luta contra a ditadura Acilino Ribeiro será tema de filme documentário e retornará
ao Piauí, a outros estados onde viveu clandestinamente e a vários países fugindo do regime militar.
Por TAMARA KRUGUER e AMIRA DÁVILA
AGNOT
– INTERPRESS: 31.03.26 – TK / AD: - Acilino Ribeiro foi
oficialmente comunicado pelo ministério dos Direitos Humanos e Cidadania que a
Comissão de Anistia do governo federal deu provimento e aprovou sua Anistia
Política através da portaria 2026 em 02 de dezembro passado, com base na Lei de
Anistia aprovada em 1979. A lei, articulada pelo piauiense então presidente do
Senado, senador Petrônio Portela e assinada pelo presidente João Figueiredo
trouxe de volta do exilio milhares de exilados, libertou centenas de presos
políticos de então e anistiou outros tantos guerrilheiros que pegaram em armas
para enfrentar a ditadura militar, entre eles Acilino Ribeiro, na época
enquadrado na Lei de Segurança Nacional – a famigerada LSN.
Acilino Ribeiro é um ex-guerrilheiro que entrou para a juventude do Partido Comunista Brasileiro / PCB, em 1968, com apenas 15 anos de idade e aos 16 anos foi preso e processado pelo Regime Militar que o enquadrou nos Decretos Leis 228 e 477, e a partir de 1969 ficou proibido de estudar por vários anos. Foi libertado da prisão pela mãe, Maria do Socorro Ribeiro e o pai Francisco Almeida que descobriram seu paradeiro e invadiram a prisão na cidade de Alexânia, interior de Goiás, onde seria assassinado e o corpo desaparecido, e considerada uma região de desova de opositores ao regime militar na época. Neste mesmo período, por volta de 1970, quando Acilino já vivia clandestino no Piauí, fugido de Goiás, a ditadura prendeu e assassinou um outro líder estudantil secundarista em Goiânia, Marco Antônio Dias, de apenas 14 anos de idade e que pertencia a mesma organização de Acilino, a FRE – Frente Revolucionária Estudantil.
Durante quase todo ano de 1969 viveu clandestino em Brasília (abril a dezembro) até fugir para o Piauí em fevereiro de 1970 e permaneceu escondido na fazenda do avô, Doca Ribeiro, em Piracuruca então prefeito municipal, até o início de 1971 quando voltou clandestinamente a Brasília e permaneceu escondido, mas agora como membro do MR8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro que fez diversas ações revolucionárias contra o governo militar, entre expropriações financeiras (assalto a bancos) para compra de armas e sustentação da luta e sequestros de diplomatas para libertar companheiros e companheiras presas.
Nesse período de 1972 a 1975 Acilino participa de várias ações
guerrilheiras integrando a chamada Frente Reservada do MR8, que era o serviço
secreto e de inteligência dos movimentos revolucionários, inclusive
infiltrando-se nas forças armadas, quando por orientação da guerrilha vai
servir o Exército como voluntário e posteriormente consegue se infiltrar no Hospital
das Forças Armadas, HFA, a partir de 1973, depois de 01 ano de serviço como
soldado e ordenança do Ministro Chefe do Estado Maior das Forças Armadas - EMFA,
por indicação de um militar simpatizante do MR8 e lá no HFA, subordinado ao
EMFA, obtendo informações valiosas para a guerrilha onde depois é descoberto,
preso, demitido e novamente processado. A partir de dezembro 1974 diplomatas e provavelmente
membros do serviço secreto chinês no Brasil em busca de informações sobre
mortos e desaparecidos políticos que tinham vivido e sido treinados na China e
na Coreia do Norte o ajudam e em 1977 após ser preso pelas ações contra as FFAA
por crimes contra a segurança nacional como espionagem e sabotagem ele consegue
escapar, e com a abertura política e o regime perdendo forças as pressões se
atenuam.
Neste período de perseguições,
processos e prisões a família teve que vender todos os bens para pagar despesas
com viagens e advogados para liberta-lo até que pai, bacharel em Filosofia e
História resolve no final dos anos de 1970 estudar e se formar em Direito para
ajudar o filho que nunca abandonou a luta. Mas Acilino também sempre teve o
apoio do PCB e demais organizações de esquerda que o ajudam através de vários
advogados amigos e companheiros de luta no decorrer desse tempo, entre eles os ex-deputados
Marcel0 Cerqueira e Alencar Furtado, ambos cassados e também perseguidos
políticos do regime, assim como também foram seus advogados Sigmaringa Seixas
(pai) e Sigmaringa Filho, além do pai já formado a partir do final dos anos de
1976.
Proibido de estudar na UnB em 1974 onde é
aprovado no vestibular para Relações Internacionais é novamente detido quando lhe
é negado o “Atestado de Bons Antecedentes
Ideológico”, documento exigido na época para estudar em escolas públicas.
Acilino foi considerado “nocivo a Segurança Nacional” e “terrorista procurado”.
No ano de 1979 Acilino se forma em Direito pela Universidade do Distrito Federal – UDF, e no ano seguinte em fevereiro de 1980, já de volta ao PCB, rompe com o partidão e volta para o Piauí, depois de articulações com o então líder sindical Lula Inácio Lula da Silva e funda o PT – Partido dos Trabalhadores no Estado, onde começa as articulações naquele ano para a construção do partido.
Após ajudar a fundar o PT volta
ao PCB em 1982 e nas eleições de novembro daquele ano se elege vereador de
Teresina pelo MDB (o PCB continuava na ilegalidade) após ter feito um trabalho
de base como advogado de vários sindicatos de trabalhadores, associações de
moradores, mulheres, estudantes, camelôs, mendigos e protitutas. De fevereiro
de 1980 a fevereiro 2007, quando retorna em definitivo a Brasília e nesse
período viajando sempre a Líbia, organizou e liderou em Teresina e no interior
do estado centenas de manifestações populares, greves, passeatas, ocupações de
terra, jornadas de lutas, saques de supermercados, e invasões do Palácio de
Karnak, da Assembleia Legislativa e da Prefeitura de Teresina. Financiou
diversas lutas e foi acusado de receber dinheiro da Líbia e do coronel Khadafy
e ser o Tesoureiro da Revolução. Foi considerado o maior líder de
massa do Piauí naqueles anos e também o mais radical dirigente da esquerda no
Estado. Era o inimigo público número 1 dos governos da oligarquia que governavam
o Estado na época. A Direita sempre o odiou e a esquerda o admirava. Um importante
jornalista piauiense amigo dele, Pires de Saboia, cunhou uma frase sobre ele que permanece viva
até os dias de hoje, de que “Acilino quando está falando está agitando,
quando está calado está conspirando”,
dentre outros apelidos que ganhou em sua trajetória. Um dos que mais o acompanhou
nestes anos foi quando ainda jovem ficou conhecido como “a formiguinha vermelha”,
por fustigar greves, passeatas e bombardear o governo com todo tipo de
manifestação desde a luta armada até a luta de massa. Quando eleito vereador e
passou por vários cargos públicos e era o principal líder na esquerda no Piauí
seus adversários o chamavam de “a serpente vermelha”, por ser
astucioso, habilidoso e fatal. Mas também teve adversários dentro da
Marxista-Leninista um Stalinista-Maoísta-Guevarista, disciplinado e dócil, mas
duro e radical defensor do “centralismo democrático”.
Posteriormente reassumiu a
direção do PCB no Piauí, quando de sua legalização em 1985, que depois se
transformou em PPS. Foi Secretário Municipal de Interior e Assuntos Comunitários
da gestão de Wall Ferraz na Prefeitura de Teresina, Secretário da Defesa Civil
na gestão de Heráclito Fortes na capital, Superintendente do INCRA sob a
presidência de Itamar Franco e Secretário de Reforma Agrária no Estado
exercendo a presidência do Instituto de Terras do Piauí – INTERPI – nos dois governos
de Mão Santa e seu Secretário de Reforma Agrária.
Acilino Ribeiro também foi
vereador por seis anos na capital teresinense no primeiro mandato, de 83 a 88
depois pelo PCB de 90 a 92. Foi candidato a Prefeito de Teresina, a senador de
República em 1998 e a governador em 2002. Em fevereiro de 2007 mudou-se definitivamente
para Brasília onde iniciou uma carreira acadêmica como professor universitário
e hoje é Reitor da UNIPOP – Universidade Popular, Secretário Nacional do PSB e
Coordenador Geral do MPS – Movimentos Populares e Sociais do PSB, um segmento
considerado a vanguarda popular e revolucionária do Partido Socialista
Brasileiro com grande inserção na sociedade civil e ideologicamente o grupo mais
à esquerda no partido.
Em entrevista recente a mídia
declarou: “dedico minha anistia a todos
os companheiros e companheiras de luta que tombaram no meio do caminho, como
meu Comandante Chefe Capitão Carlos Lamarca e meu comandante imediato Ricardo
Zarattini, ambos do MR8; aos comandantes guerrilheiros Carlos Marighela e
Carlos Eugênio Paz, o Clemente, da ALN;
ao Oswaldão e a Lúcia Petit do PCdoB e aos guerrilheiros do Araguaia; a Luís
Carlos Prestes e todos os camaradas do PCB, aos camaradas da VPR, da
VAR-Palmares, do COLINA, do MOLIPO, da POLOP,
e de todas as organizações que lutaram numa época em que a morte era o
preço da coragem, assim como a todos e todas que sobreviveram e venceram a
morte a que estávamos destinados como as companheiras Dilma Rousseff, Inês
Ettiénne, Moema Santiago, a José Dirceu, Vladimir Palmeira e Frei Beto, que hoje
continuam a luta e outras e outros, mas especialmente a minha mãe, Dona Socorro
e a meu pai, Seu Almeida, que participaram ativamente da luta me ensinando
sobre política, me apoiando e me protegendo por todos aqueles anos luta, sonhos
e chumbo”. (OBS: neste momento, durante a
entrevista Acilino para por instantes e chora por alguns minutos ao relembrar
da luta e dos companheiros e companheiras mortos.)
Hoje aos 72 anos de idade,
aposentado, vive em Brasília. Disse que viajará a Teresina em 2026 e voltará a
Piracuruca para reencontrar alguns amigos de mais de 50 anos atrás quando ficou
clandestino por quase dois anos fugindo da ditadura e escondeu-se na cidade e
as vezes em Teresina além de outros estados do Nordeste e em Goiás. Abraçar o
tio, Raimundo Magalhães que o protegia também e lhe escondeu várias vezes no
Piauí.
E finalizou suas declarações afirmando ser
contra a anistia aos golpistas do 08 de janeiro porque existe uma grande
diferença entre a anistia dele e a dos bolsonaristas: “eu lutei contra uma ditadura para
derrubá-la e implantar a democracia, e eles tentaram derrubar a democracia a
qual ajudei a construir e implantar uma ditadura; portanto, sem anistia”,
finalizou. AGNOT – INTERPRESS: 31.03.26 – TK / AD.
Histórico Fotográfico de ACILINO RIBEIRO
file:///C:/Users/User/Desktop/ACILINO%20e%20MPS/Materia%20anistia%20acilino.pdf































