Trajetória política de Acilino Ribeiro vira tema de filme documentário após anistia política por luta contra ditadura militar
AGNOT
– INTERPRESS: 30.06.26 – TK / AD: - Acilino Ribeiro, o lendário
Comandante Mercúrio, foi oficialmente comunicado pelo ministério dos Direitos
Humanos e Cidadania em dezembro passado que a Comissão de Anistia do governo
federal deu provimento e aprovou sua Anistia Política através da portaria 2026
em 02 de dezembro passado, com base na Lei de Anistia aprovada em 1979. A lei,
articulada pelo piauiense então presidente do Senado, senador Petrônio Portela
e assinada pelo presidente João Figueiredo trouxe de volta do exilio milhares
de exilados, libertou centenas de presos políticos de então e anistiou outros
tantos guerrilheiros que pegaram em armas para enfrentar a ditadura militar,
entre eles Acilino Ribeiro, na época enquadrado na Lei de Segurança Nacional –
a famigerada LSN.
Sua longa trajetória política de
mais de meio século de luta, com 20 anos contra a ditadura no Brasil e outras
lutas, tanto no Brasil durante os anos 60, 70 e a década de 1980 e 90, como no
exterior em países onde viveu e lutou, estudou e treinou para ser um combatente
guerrilheiro, como Líbia, Rússia (na antiga União Soviética) Cuba, El Salvador,
Nicarágua, Argélia, Burkina Faso, China, Iugoslávia, Alemanha Oriental, Angola,
Moçambique e outros para denunciar o Regime Militar em palestras como na França,
Itália, Áustria, Suíça, Holanda, Portugal e Espanha serão revisitados agora
como palco de um filme documentário que está sendo preparado contando sua
história. O projeto é de uma ONG europeia que busca apoio financeiro de
governos e outras instituições de alguns países onde Acilino é conhecido e
ainda mantem contatos com ex-companheiros de luta. Mas os preparativos do
projeto já se iniciaram e o filme documentário deve estrear ano que vem. O
projeto tem três etapas: a primeira será o documentário que conta a história
pessoal e política do ex-guerrilheiro desde criança aos dias de hoje; a segunda
etapa do projeto é um filme com atores brasileiros e estrangeiros que versa
apenas sobre o período de luta contra o regime militar, prisão,
clandestinidade, exilio, redemocratização e atuação no exterior, especialmente
na Libia e Palestina onde viveu e lutou; e a terceira etapa será uma minissérie
de quinze (15) capítulos contando a história do Comandante Mercúrio, seu
codinome na guerrilha internacional, suas missões revolucionárias e sua relação
política e de amizade com o coronel Muammar Khadafy, da Líbia e o período em
que foi militante da FPLP, Frente Popular de Libertação da Palestina e convivência
com Yasser Arafat e George Habash.
Acilino Ribeiro é um ex-guerrilheiro que entrou para a juventude do Partido Comunista Brasileiro / PCB, em 1968, com apenas 15 anos de idade e aos 16 anos foi preso e processado pelo Regime Militar que o enquadrou nos Decretos Leis 228 e 477, e a partir de 1969 ficou proibido de estudar e trabalhar por vários anos.
Foi libertado da prisão
pela mãe, Maria do Socorro Ribeiro e o pai Francisco Almeida que descobriram
seu paradeiro e invadiram a prisão na cidade de Alexânia, interior de Goiás,
onde seria assassinado e o corpo desaparecido, e considerada uma região de
desova de opositores ao regime militar na época. Neste mesmo período, por volta
de 1970, quando Acilino já vivia clandestino no Piauí, fugido de Goiás, a
ditadura prendeu e assassinou um outro líder estudantil secundarista em
Goiânia, Marco Antônio Dias, de apenas 14 anos de idade e que pertencia a mesma
organização de Acilino, a FRE – Frente Revolucionária Estudantil. Sua mãe e seu
pai também foram perseguidos pelo regime e por se negarem a dizer onde Acilino
estava foragido passaram a responder criminalmente por ele que era de menor na
época.
Durante quase todo ano de 1969 viveu
clandestino em Brasília (abril a dezembro) até fugir para o Piauí em fevereiro
de 1970 e permaneceu escondido na fazenda do avô, Doca Ribeiro, em Piracuruca então
prefeito municipal, até o início de 1971
quando voltou clandestinamente a Brasília e permaneceu clandestino, mas agora como membro
do MR8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro que fez diversas ações
revolucionárias contra o governo militar, entre expropriações financeiras (assalto
a bancos) para compra de armas e sustentação da luta e sequestros de diplomatas
para libertar companheiros e companheiras presas.

Nesse período de 1972 a 1975 Acilino participa de várias ações clandestinas
de cunho revolucionário integrando a chamada Frente Reservada da guerrilha, que
era o serviço secreto e de inteligência dos movimentos revolucionários,
inclusive infiltrando-se nas forças armadas, quando por orientação dos
comandantes guerrilheiros se infiltra no Exército como “voluntário da pátria” e
posteriormente consegue se infiltrar no Hospital das Forças Armadas, HFA, a
partir de 1973, depois de 01 ano servindo como ordenança do Ministro Chefe do
Estado Maior das Forças Armadas - EMFA, por indicação de um militar (tenente do
Exército) simpatizante do MR8 e lá no HFA, subordinado ao EMFA, obtendo
informações valiosas para a guerrilha onde depois é descoberto, preso, demitido
e novamente processado. Antes porem, a partir de dezembro 1974 diplomatas e provavelmente
membros do serviço secreto chinês no Brasil em busca de informações sobre
mortos e desaparecidos políticos que tinham vivido e sido treinados na China e
na Coreia do Norte o ajudam e em 1977 após ser preso pelas ações contra as FFAA
por crimes contra a segurança nacional como espionagem e sabotagem ele consegue
escapar, e com a abertura política e o regime perdendo forças as pressões se
atenuam e ele se engaja na luta pela anistia.
Neste período de perseguições,
processos e prisões a família teve que vender todos os bens para pagar despesas
com viagens e advogados para liberta-lo, até que pai, bacharel em Filosofia e
História resolve no final dos anos de 1970 estudar e se formar em Direito para
ajudar o filho que nunca abandonou a luta. Mas Acilino também sempre teve o
apoio do PCB e demais organizações de esquerda que o ajudam através de vários
advogados amigos e companheiros de luta no decorrer desse tempo, entre eles os ex-deputados
Marcel0 Cerqueira e Alencar Furtado, ambos cassados e também perseguidos
políticos do regime, assim como também foram seus advogados Sigmaringa Seixas
(pai) e Sigmaringa Filho, além do pai já formado a partir do final dos anos de
1976.
No início de 1975 Acilino vai a
Líbia clandestinamente, quando então passa a trabalhar com o coronel Muammar
Khadafy, e consegue algum apoio para o MR8 e em 1977 vai a Argélia onde conhece
Arraes. Também em 1977 vai a Moscou, na então União Soviética. Nesses três
países estuda geopolítica, sabotagem, técnicas de infiltração e disfarce, uso e
fabricação de armas, espionagem e artes marciais, faz treinamento militar, de estado
maior e de guerrilha urbana e rural, e sempre sai e entra clandestinamente no
Brasil com a ajuda dos palestinos com quem mantem relações desde 1975 quando
era estudante de Economia na Faculdade Católica de Brasília e amplia a luta
contra a ditadura que começa a perder força. Em 1978 a campanha pela Anistia
toma corpo e em agosto de 1979 é aprovado a Lei da Anistia que beneficia
milhares de brasileiros presos, processados, exilados e torturados, inclusive
ele que passa a ser um dos beneficiados pela lei.
Proibido de estudar na UnB em 1974 onde é
aprovado no vestibular para Relações Internacionais é novamente detido quando lhe
é negado o “Atestado de Bons Antecedentes
Ideológico”, documento exigido na época para estudar em escolas públicas e
poder fazer a matricula. Acilino foi considerado “nocivo a Segurança Nacional”
e “terrorista procurado”.
Também obrigado a abandonar a
Faculdade de Economia da hoje Universidade Católica de Brasília em 1975, vai
para a UDF posteriormente a saída da Católica e no ano de 1979 Acilino se forma
em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade do Distrito
Federal – UDF, onde foi o principal líder estudantil na época, e no ano
seguinte em fevereiro de 1980, já de volta ao PCB, rompe com o partidão e volta
para o Piauí, depois de articulações com o então líder sindical Lula Inácio
Lula da Silva e funda o PT – Partido dos Trabalhadores no Estado, onde começa
as articulações naquele ano para a construção do partido.
Após ajudar a fundar o PT volta ao
PCB em 1982 e nas eleições de novembro daquele ano se elege vereador de
Teresina pelo MDB (o PCB continuava na ilegalidade) após ter feito um trabalho
de base como advogado de vários sindicatos de trabalhadores, associações de
moradores, mulheres, estudantes, camelôs, mendigos e prostitutas. De fevereiro
de 1980 a fevereiro 2007, quando retorna em definitivo a Brasília e nesse
período viajando sempre a Líbia, organizou e liderou em Teresina e no interior
do estado centenas de manifestações populares, greves, passeatas, ocupações de
terra, jornadas de lutas, saques de supermercados, e invasões do Palácio de
Karnak, da Assembleia Legislativa e da Prefeitura de Teresina. Financiou
diversas lutas e foi acusado de receber dinheiro da Líbia e do coronel Khadafy
e ser o Tesoureiro da Revolução. Neste período foi acusado pelo
governo militar e os órgãos de repressão por financiar ações revolucionárias e
de massa com o objetivo de promover a Revolução Socialista e iniciar um
processo revolucionário no Brasil e na América Latina, quando, segundo os
órgãos de segurança do país, administrava um “Fundo de Ação
Revolucionária”, para financiar greves, passeatas e manifestações
contra os governos de Direita no Brasil e América Latina.
Foi considerado o maior líder de massa do
Piauí naqueles anos e também o mais radical dirigente da esquerda no Estado.
Era o inimigo público número 1 dos governos da oligarquia que governavam o
Estado na época. A Direita sempre o odiou e a esquerda o admirava. Um importante
jornalista piauiense amigo dele, Pires de Saboia, cunhou uma frase sobre ele
que permanece viva até os dias de hoje, de que “Acilino quando está falando está
agitando, quando está calado está conspirando”, dentre outros apelidos que ganhou em sua trajetória. Um dos que
mais o acompanhou nestes anos foi quando ainda jovem ficou conhecido como “a
formiguinha vermelha”, por fustigar greves, passeatas e bombardear o
governo com todo tipo de manifestação desde a luta armada até a luta de massa. Quando eleito vereador e passou por vários cargos públicos e era o principal
líder na esquerda no Piauí seus adversários o chamavam de “a serpente vermelha”, por
ser astucioso, habilidoso e fatal. Mas também teve adversários dentro dos
partidos de linha Marxista-Leninista, por ser um Stalinista-Maoísta-Guevarista
linha dura, apesar de disciplinado e dócil, mas enérgico e radical defensor do
“centralismo democrático”.
Posteriormente reassumiu a
direção do PCB no Piauí, quando de sua legalização em 1985, que depois se
transformou em PPS. Foi Secretário Municipal de Interior e Assuntos Comunitários da gestão de Wall Ferraz na Prefeitura de Teresina, Secretário da Defesa Civil
na gestão de Heráclito Fortes na capital, Superintendente do INCRA sob a
presidência de Itamar Franco e FHC, Secretário de Reforma Agrária no Estado
exercendo a presidência do Instituto de Terras do Piauí – INTERPI – nos dois governos
de Mão Santa.
Acilino Ribeiro também foi
vereador por seis anos na capital teresinense no primeiro mandato, de 83 a 88
depois pelo PCB de 90 a 92. Foi candidato a Prefeito de Teresina, a senador da
República em 1998 e a governador em 2002. Em fevereiro de 2007 mudou-se definitivamente
para Brasília onde iniciou uma carreira acadêmica como professor universitário
e hoje é Reitor da UNIPOP – Universidade Popular, Secretário Nacional do PSB e
Coordenador Geral do MPS – os Movimentos Populares e Sociais do PSB, um
segmento considerado a vanguarda popular e revolucionária do Partido Socialista
Brasileiro com grande inserção na sociedade civil e ideologicamente o grupo
mais à esquerda no partido regido por uma linha ideológica marxista-leninista e
influencias maoista e guevarista.
Em entrevista recente a mídia
declarou: “dedico minha anistia a todos
os companheiros e companheiras de luta que tombaram no meio do caminho, como
meu Comandante Chefe Capitão Carlos Lamarca e meu comandante imediato Ricardo
Zarattini, ambos do MR8; aos comandantes guerrilheiros Carlos Marighela e
Carlos Eugênio Paz, o Clemente da ALN; ao
Oswaldão e a Lúcia Petit do PCdoB e aos guerrilheiros do Araguaia; a Luís
Carlos Prestes e todos os camaradas do PCB, aos camaradas da VPR, da
VAR-Palmares, do COLINA, do MOLIPO, da POLOP,
e de todas as organizações que lutaram numa época em que a morte era o
preço da coragem, assim como a todos e todas que sobreviveram e venceram a
morte a que estávamos destinados como as companheiras Dilma Rousseff, Inês
Ettiénne, Moema Santiago, a José Dirceu, Vladimir Palmeira e Frei Beto, que hoje
continuam a luta e outras e outros, mas especialmente a minha mãe, Dona Socorro
e a meu pai, Seu Almeida, que participaram ativamente da luta me ensinando
sobre política, me apoiando e me protegendo por todos aqueles anos luta, sonhos
e chumbo”. (OBS: neste momento, durante a
entrevista Acilino para por instantes e chora por alguns minutos ao relembrar
da luta e dos companheiros e companheiras mortos.)
Hoje aos 72 anos de idade,
aposentado, vive em Brasília. Disse que viajará a Teresina este ano e voltará a Piracuruca para reencontrar alguns
amigos de mais de 50 anos atrás quando ficou clandestino por quase dois anos
fugindo da ditadura e escondeu-se na cidade e as vezes em Teresina além de
outros estados do Nordeste e em Goiás. Abraçar o tio, Raimundo Magalhães que o
protegia e lhe escondeu várias vezes no Piauí.
E finalizou suas declarações afirmando ser
contra a anistia aos golpistas do 08 de janeiro porque existe uma grande
diferença entre a anistia dele e a dos bolsonaristas: “eu lutei contra uma ditadura para
derrubá-la e implantar a democracia, e eles tentaram derrubar a democracia a
qual ajudei a construir e implantar uma ditadura; portanto, sem anistia”,
finalizou. AGNOT – INTERPRESS: 28.06.26 – TK / AD.









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